(retirado da Zero Hora, dia 19 de julho de 2008)
Deixem-me contar a vocês uma historinha que, para mim, é causa de muito orgulho e que aconteceu quando eu trabalhava na Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul. Um dia, e só por acaso, lá encontrei, o doutor Aloyzio Achutti, que eu conhecia e de quem era amigo. Ele vinha, segundo me disse, pedir demissão de seu cargo de médico do Estado. Tratava-se de um grande profissional, e sua saída seria uma perda para o Estado. Sugeri-lhe, portanto, que não fizesse isso e que, ao invés, começasse a trabalhar, na Secretaria, com doenças cardiovasculares, para as quais a saúde pública não tinha nenhum programa. Não sei até que ponto a minha sugestão foi importante, mas o certo é que o Achutti dedicou-se a essa área, e com enorme sucesso. Pensei nisso ao ver o trabalho que ele recentemente publicou com Maria Inês Azambuja e Sergio Luiz Passanesi, também grandes médicos e pioneiros no tema, relacionando a mortalidade por doenças cardiovasculares com as desigualdades sociais em Porto Alegre e mostrando que pobres têm 2,6 vezes mais chances de morrer dessas doenças do que os ricos.
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Essa é uma constatação extraordinária. No passado, havia uma nítida separação entre doenças de ricos e doenças de pobres, essas objetivos prioritários da saúde pública. Pobre morria basicamente de doenças transmissíveis, causadas por micróbios. Era uma mortalidade que começava cedo, com diarréia infantil, sarampo, difteria e outras enfermidades e prosseguia ao longo da vida. Como morriam cedo, os pobres tinham uma baixa expectativa de vida. Não chegavam, portanto, àquelas fases da vida em que as chamadas doenças cronicodegenerativas como o câncer e doenças do coração, são mais freqüentes. Portanto, não era só a renda, o nível educacional, as condições de habitação que atuavam como barreiras de classe: as doenças também o faziam. Por que os ricos tinham mais doença cardiovascular e câncer? Porque comiam muito, porque fumavam, porque eram sedentários (quem se mexia eram os pobres, na lavoura e nas fábricas). Os pobres, que não tinham esgoto, que viviam confinados em casebres sem condições de higiene, representavam um alvo preferencial para os micróbios, inclusive porque as vacinas e medicamentos eram escassos.
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Isso mudou. E mudou drasticamente. De um modo geral, a mortalidade por doenças transmissíveis, diminuiu bastante apesar do surgimento de novas doenças, como a aids, e do ressurgimento de doenças antigas. Mas o estilo de vida alterou-se. Alertadas para o riscos representados por certos hábitos, as pessoas de classe média (que cresce muito), estão deixando de fumar (e agora vão deixar de beber), estão se alimentando mais racionalmente, incluindo frutas e verduras na dieta. Estão freqüentando as academias, estão fazendo exames periódicos de saúde. Os pobres, por outro lado, estão comendo mais, e estão comendo errado - salgadinhos, alimentos com muita gordura, frituras. Estão fumando mais, porque agora têm dinheiro para cigarros, estão mais sedentários. E isso explica o resultado do trabalho. É uma mistura de boas e más notícias, isto, mas na medida em que a população e os profissionais de saúde se derem conta do que se passa, poderemos ficar só com as boas notícias. Para isso, trabalhos como o citado são fundamentais. Entenderam agora por que me orgulho do pedido que, há muitos anos, fiz ao doutor Achutti?
(Moacyr Scliar)
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