sexta-feira, 25 de julho de 2008

O Dia da Invasão - Retirado do Arquivo I

Há 60 anos, uma "pegadinha" de Orson Welles fazia a América tremer de medo. O Halloween, "O dia das Bruxas", chegou um dia antes, em 1938, e de forma inesperada para os americanos, acostumados às inevitáveis brincadeiras do 31 de outubro. Na noite do dia 30, muitos dos seis milhões de ouvintes da rede CBS e suas filiadas levaram a sério o que ouviam pelas ondas do rádio: os marcianos estavam invadindo os Estados Unidos! De acordo com os relatos da época, quem estava na zona rural correu desesperadamente para a cidade, e cruzou com quem estava na cidade e procurava refúgio no campo. Os telefones das delegacias de polícia não paravam de tocar e os gritos de socorro ecoavam pelas ruas. Foi o caso mais célebre de histeria coletiva da História, segundo um estudo publicado pelo professor Hadley Cantril, da Universidade de Princeton.

Os gritos, choros e preces desesperadas deram lugar aos risos e, em boa parte dos casos, às imprecações, quando se soube o que realmente estava acontecendo: tratava-se de uma adaptação radiofônica do livro "A Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, feita por Orson Welles para o programa "Mercury Theatre On The Air", que havia estreado no dia 11 de setembro do mesmo ano e ia ao ar das 20 às 21 horas. Em sua tese, o professor Cantril atribuiu a reação popular a três causas: insegurança pessoal, insegurança econômica e insegurança política. Naqueles tempos, a voz de Hitler já ecoava assustadoramente pela Europa e o rádio era o mais poderoso veículo de comunicação.


A INVASÃO
No começo da transmissão, Welles se apresentara como um certo professor Pierson, "famoso astrônomo do Observatório de Princeton", e declarara pelo rádio, na forma de entrevista, que estava ocorrendo uma série de fenômenos na crosta do planeta Marte. Na verdade, a "entrevista" era tirada do livro "A Guerra dos Mundos", escrito em 1898 por H. G. Wells, mas o tom de seriedade fez com que muitos ouvintes achassem que tudo era verdade. Na seqüência da transmissão, a emissora informou que um disco voador havia aterrissado numa pequena fazenda em Grovers Mill, Estado de Nova Jersey - perto de Nova York. Logo depois, informava em tom sensacionalista que outros discos teriam pousado em várias partes do país. A transmissão teve direito até ao pronunciamento de um hipotético secretário do Interior, "diretamente de Washington", admitindo a gravidade da situação e pedindo calma aos moradores.

Especialistas no estudo do comportamento humano comentaram em entrevistas aos jornais da época que "os ouvintes estão sempre prontos a acreditar no que uma autoridade oficial diz" e, por isso mesmo, o pânico foi generalizado. Para complicar ainda mais a situação, naquele momento os americanos temiam uma "invasão" de alemães ou chineses. Depois do episódio, Welles tornou-se uma celebridade mundial e foi contratado por Hollywood para escrever, produzir, dirigir e atuar em filmes nos estúdios da RKO. Os artistas que participaram da famosa adaptação radiofônica foram chamados para integrar o elenco do antológico "Cidadão Kane", considerado um dos mais importantes filmes de todos os tempos.

Entre as inúmeras histórias sobre o trauma causado pela transmissão está a de vários cidadãos que tiveram de ser resgatados seis semanas depois por voluntários da Cruz Vermelha nas montanhas de Dakota, pois eles se recusavam a acreditar que tudo não passara de ficção. E uma ingênua operária mandou a seguinte carta a Orson Welles:"Quando aquelas coisas aconteceram, eu achei que a melhor coisa a fazer era dar no pé. Então, peguei os 3,25 dólares que havia economizado e comprei uma passagem. Após ter viajado 16 milhas, ouvi dizer que era tudo uma peça. Agora estou sem o dinheiro e sem os sapatos que ia comprar com ele. O senhor poderia, por favor, mandar alguém me entregar um par de sapatos pretos, tamanho 9 B?".

O Dono do Mundo? OO'

Barack Obama, candidato à presidência dos Estados Unidos, fala sobre o voto jovem, revela o que toca no seu iPod e explica suas três maiores prioridades como presidente na revista Rolling Stone desse mês de julho, nas bancas



Pouco depois de Barack Obama ter declarado vitória na disputa pela indicação democrata à presidência dos Estados Unidos, embarquei no 757 fretado de sua campanha, como membro da comitiva de imprensa. Ele voaria de Chicago até Appleton (Wisconsin), para participar de um debate com eleitores, parte de uma série que realizava em estados do meio-oeste e nos chamados swing states (estados indecisos) com o objetivo de atender eleitores que possa ter deixado para trás durante as primárias. Além disso, claro, os eventos serviriam como aquecimento para qualquer debate que venha a travar com John McCain (o republicano).

A primeira coisa que me chama a atenção no avião é a simplicidade do ambiente: são apenas assentos de classe econômica, do fundo (onde fica a imprensa) à frente (onde fica o candidato). Não existe um compartimento separado para este possível presidente – ele reserva apenas a segunda fila para si e seus jornais. Não há mais de dez membros de sua equipe no vôo, e mais de uma dúzia de fileiras estão vazias. O espaço serve para separar o senador do contingente do Serviço Secreto e do batalhão de membros da imprensa que viaja com ele.

Hoje não é um dia especial, nem vamos a um grande evento: as primárias chegaram ao fim e nenhum dos grandes nomes da mídia está por ali. Até este momento, Obama manteve a imprensa a uma distância respeitosa – apesar de gozar de sua evidente admiração. O limite para nossa entrevista será de 50 minutos, o que, creio eu, diz muito a respeito dele e de sua campanha. Quase todos os outros candidatos à presidência que conheci e entrevistei se preocupavam em ser sociáveis e comunicativos – o que levavam quase ao excesso. Estavam sempre ávidos por agradar e impressionar. Obama, ao contrário, é quieto, controlado e preciso sem se esforçar para isso.

Sua calma dá o tom à campanha tranqüila e equilibrada que dirige. Enquanto fala, seu intelecto articulado é pontuado por um humor leve, da mesma forma que sua campanha meticulosa é palco para a eloqüência e o carisma de líder que ele exibe. Sempre me perguntam como ele é. Se você realmente quer saber, leia (a biografia de Obama) Dreams from My Father. Está tudo lá, e o livro por si só é uma bela obra de literatura. Quando encerramos, suas palavras de despedida são ditas com um sorriso reluzente: “Certo, irmão. Se cuida”.

Bob Dylan acabou de lhe declarar apoio. O que isso significa?
Ouvir Dylan e Bruce Springsteen dizendo palavras generosas a meu respeito é algo extraordinário, devo confessar. Esses homens são ícones.

Qual é sua música favorita do Dylan?
Tenho umas 30 dele no meu iPod. Acho que o Blood on the Tracks (1974) está inteiro lá. Uma das minhas favoritas durante as prévias era “Maggie’s Farm”. Penso muito nela quando ouço o discurso de alguns políticos.

Quando você começou a pensar que poderia ou deveria ser presidente? Em que fase da sua vida surgiu essa idéia?
Dividiria essa história em dois momentos: o primeiro foi quando, ainda em um nível abstrato, pensei que seria capaz de tomar decisões mais adequadas como presidente do que o atual ocupante do posto; o segundo foi quando, já de forma muito concreta, acreditei que ser presidente era algo que almejava. Depois de 2004 – quando venci minha primeira primária para o Senado e fui para a convenção democrata – senti que minha mensagem poderia ter impacto em grande parte da população norte-americana.

O resultado obtido naquela convenção democrata foi decisivo?
Não foi apenas durante a convenção. Houve uma reação muito poderosa [do público] quando eu disputava a primária em Illinois. Depois que venci, ficou no ar um sentimento real de superar os velhos argumentos, as pessoas estavam ávidas por isso.

E quando foi que você disse “sou negro, meu nome é esse... Foda-se, eu consigo chegar lá”.
Nunca me faltou...

Autoconfiança?
Confiança de que minha história pessoal não seria barreira à minha candidatura.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Para valer

(retirado da Zero Hora, dia 24 de julho de 2008)

Numa carta ao Estado de S. Paulo o sr. Cesário Ramalho da Silva, presidente da Sociedade Rural Brasileira, comentou um texto meu sobre a reforma agrária intitulado "Injustiça e desordem", publicado aqui há semanas. O sr. Cesário não gostou do texto. Nele eu lamentava a demora de uma reforma agrária para valer no país e o sr. Cesário pergunta: "Que reforma agrária para valer seria essa que dilapidaria o setor do agronegócio, que segura as contas do país, com efeito multiplicador de gerar riqueza, emprego e renda para a indústria e os serviços?" . Segue dizendo que toda a nação já entendeu que o setor rural é o maior responsável pelo crescimento da economia brasileira, junto com a estabilização da moeda, salvo os que insistem num pensamento "ideológico" e atrasado sobre a questão - como, suponho, o meu. E recorre a uma analogia curiosa: "É como voltar ao tempo do Brasil colônia, onde nós, colonizados, não podíamos acumular riqueza porque tudo pertencia à Coroa portuguesa". Me parece que se a situação colonial evoca alguma coisa é a atual coexistência no Brasil do latifúndio sem proveito social ou econômico e as legiões de banidos da terra, com a Coroa portuguesa no papel do proprietário ausente. Não se quer a dilapidação de negócio algum e sim uma reforma agrária que inclua os milhões de hectares vazios mantidos no Brasil só pelo seu valor patrimonial - uma realidade notória que o sr. Cesário não cita - na cadeia produtiva, com colonização bem feita e bem apoiada.

O sr. Cesário diz que não há exemplo de reforma agrária que deu certo. Eu tenho alguns. Li um relatório da ONU sobre os efeitos dramáticos na cidade de Calcutá, conhecida pela miséria e a extrema degradação urbana, da reforma agrária feita na sua região. Uma reforma agrária radical livrou o Japão de uma estrutura fundiária feudal e teve muito a ver com sua recuperação depois da guerra. A louca corrida para ocupar o Oeste americano não é modelo para nenhum tipo de colonização racional, mas não deu errado. E já que exemplos americanos legitimam qualquer argumento, mesmo os do pensamento "ideológico", recomendo que se informem sobre o Homestead Act, com o qual o governo dos Estados Unidos lançou, no século 19, o maior programa de distribuição de terra da História. Não surpreende a desinformação sobre reformas agrárias alheias que deram certo, ou só foram frustradas pela reação violenta. Os próprios sucessos da incipiente reforma agrária brasileira são ignorados.

Sobre os assentamentos que estão funcionando em paz, e produzindo, e contribuindo para o efeito multiplicador que o sr. Cesário, muito justamente, exalta, só se tem silêncio. O texto que desagradou ao sr. Cesário foi motivado por uma manifestação, depois atenuada, do Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que equiparava o movimento dos sem-terra à guerrilha e pedia sua dissolução. Diante da flagrante iniqüidade da situação fundiária brasileira, mostravam, como na frase de Goethe, que preferiam a ordem à justiça. A criminalização do movimento dos sem-terra seria a outra face da descriminalização, pela absolvição e o esquecimento, de atos como o massacre de Carajás. Acho que o sr. Cesário e seus pares concordam comigo que a escolha não precisaria ser feita, que ordem ideal seria a que advém da justiça, ou da ausência da injustiça. Mas isso, claro, pressupõe outro Brasil. Talvez outra humanidade.

(Luis Fernando Verissimo)