quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Dez coisas que eu sei - L.F. VERISSIMO

(Retirado da Zero Hora de hoje)


1. A preguiça é a mãe de todos os males que não requerem muito esforço.

2. O preço da liberdade é a eterna vigilância, mais a taxa de embarque.

3. Só Deus é onipresente e onipotente, não importa o que digam do juro bancário.

4. O chato desses planos macroeconômicos e dessas políticas a longo prazo é que a gente tem que viver no detalhe.

5. Se todos os banqueiros do mundo fossem colocados lado a lado na linha do Equador – sabe que poderia ser uma solução?

6. A morte é a última coisa que eu quero que me aconteça.

7. Tudo passa. Até esta angústia com a transitoriedade de tudo.

8. Deveriam ter aproveitado a reforma ortográfica para substituir o chapeuzinho por algo mais moderno.

9. Pessimista mesmo não é o cara que não vê luz no fim do túnel, é o que nem tem certeza de que isto seja um túnel.

10. Existe um ser superior que dirige os nossos destinos, só não se sabe como ele conseguiu passar no teste psicotécnico.

#
Tempo antigo

(Da série “Os menores contos eróticos de todos os tempos”)

Começou a despi-la com o olhar. Primeiro o chapéu, depois o véu, a estola, as luvas, o vestido, a anágua, a outra anágua, a terceira anágua, a armação... Estava começando a desatar o espartilho quando ela comentou, brejeira, do outro lado do salão:

– Maurice, você está lacrimejando.

“Danação”, pensou o Conde, “preciso aprender a controlar a secreção precoce”.

#
Finalmente

(Da série “Poesia numa hora dessas?!”)

Quando a Terra terminar

numa grande explosão solar

e o que era pedra, pau e aço

virar pedaço

e até os mares

forem pelos ares

sei que então, só então,

voando em formação

com moedas, botões, dedais

e os restos de catedrais

vai aparecer aquele meu chaveiro

com a foto da Marilyn Monroe

de corpo inteiro.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Trem das onze - retirado do portrasdaletra.blogspot.com

Não posso ficar
Nem mais um minuto com você
Sinto muito amor
Mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã
E além disso mulher
Tem outra coisa
Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar
Sou filho único
Tenho minha casa pra olhar

Com todo o respeito a Rita Lee e ao compositor baiano, a mais completa tradução de Sampa chama-se Adoniran Barbosa. Para muitos, "Trem das Onze" é a mais completa tradução de Adoniran. Ledo engano.
Primeiro porque o compositor morria de medo de andar de trem - temia ficar preso entre as portas quando estas se fechassem. De outra parte, Adoniran se caracterizara por adotar em suas canções a linguagem popular, compondo em português errado. O compositor se defendia: "Não adianta querer falar errado. Tem que saber falar errado".
O certo é que "Trem das Onze", que ganhou o primeiro prêmio no concurso de músicas de carnaval no 4º Centenário da cidade do Rio de Janeiro com o grupo Demônios da Garoa, em 1964, saiu sem erros de português. Exceto um.
Várias das canções de Adoniran homenageavam bairros e ruas da cidade que ele, boêmio inveterado, se gabava por conhecer pessoalmente. De fato, conhecia São Paulo como poucos, mas conta o compositor e biólogo Paulo Vanzolini, outra fiel tradução da Paulicéia, que no Jaçanã ninguém diz "em Jaçanã", como está em "Trem das Onze". Foi tirar satisfação e ouviu do amigo: "Tanto faz. Na Jaçanã, no Jaçanã, em Jaçanã. Eu sei lá onde é que fica essa porcaria."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Dia 07, volta tudo "a"normalidade


Tô passando aqui pra deixar claro que as reuniões do Grupo EJC da paróquia São José, de Sapuka, volta a normalidade no dia 07 de março de 2009.. não se tem ao certo qual será o assunto da reunião mas certamente vai ser bem legal [*-*] . As reuniões de folclore dar-se-ão (mazaaaaaaaaah!), no segundo e quarto sábado decada mês, provavelmente ajudando ao Canaã da mesma paróquia... Este último ainda está sendo negociado[^^"]
Qualquer dúvida, tanto pelo EJC quanto musicalmente falando, me procurem por aqui, Yokurt, ou via e-mail

Um grande abraço a todos
Beijo pra moça.^^
See yah
\o

O Outro - L.F. VERISSIMO

(retirado da Zero Hora de hoje)

“Quem é o terceiro que caminha sempre a seu lado?

Quando eu conto, há apenas você e eu juntos.

Mas quando olho adiante a estrada branca

Há sempre um outro caminhando ao seu lado

Envolto num manto marrom, encapuzado.

Não sei se homem ou mulher.

Mas quem é esse do seu outro lado?”

T.S. Eliot escreveu esta parte do seu poema “The waste land” baseado no relato de uma das primeiras expedições à Antártica, quando os exploradores no fim das suas forças tinham a constante ilusão de que havia uma pessoa a mais no grupo do que as que podiam ser contadas.


***


Quatro na mesa. Todos decididamente mais pra lá do que pra cá. Tinham combinado que pediriam a última rodada de chopes, porque o dono já ameaçava virar as cadeiras sem esperar que eles as desocupassem. Um deles chama o garçom e pede.

– Mais cinco. Para terminar.

O garçom vai buscar os chopes e os quatro ficam em silêncio. Até que um deles pergunta:

– Por que cinco?

– Um pra cada um, ora.

– Mas nós somos quatro.

– Como, quatro?

– Quatro. Um, dois, três, quatro.

– Você esqueceu de contar você mesmo.

– Esqueci não. Olhe só. Eu, um. Você, dois. Três e quatro.

– Assim não dá. Cada um grita um número. Eu sou um.

– Dois.

– Três.

– Dezessete.

– Mas o que é isso? Que dezessete?

– Não era para escolher um número?

– Sua besta. De um a quatro, ou cinco, para saber quantos nós somos.

– Mas isso é fácil. É só contar. Um, dois, três, quatro.

– Você contou você mesmo?

– Contei. Ou não contei? Não me lembro mais.

O garçom traz os cinco chopes.

– Tenho uma ideia – diz um deles. – Cada um toma o seu chope. Se sobrar um, é porque nós somos quatro.

Todos bebem. Um dos chopes permanece intocado. Os quatro ficam em silêncio, olhando o copo cheio. Finalmente alguém diz:

– Viu? Nós somos quatro.

– Ou tem um quinto, mas ele não quer beber conosco...

Mais silêncio.

– Por que será?

Estão todos ainda olhando para o copo cheio, quietos e desconsolados, quando o dono vem virar as cadeiras.