Julho de 1994. Estamos - jornalistas, torcedores, alguns nativos perplexos que nada têm a ver com a Copa do Mundo em curso - num avião entre a Califórnia, onde a Seleção acabara de vencer os Estados Unidos por 1 a 0, e Dallas, onde a Seleção enfrentaria a Holanda. Na fileira atrás da minha, três brasileiros trocam impressões sobre o time do Brasil. É consenso entre os três que com Dunga não dá. Que Dunga tem que sair do time.
- O homem não acerta um passe! - diz um deles.
Como no jogo da véspera, contra a seleção americana, Dunga tinha não só acertado vários lançamentos longos como feito o passe para Bebeto marcar o gol da vitória, fiquei pensando no terrível poder do preconceito, que faz até cérebros negarem o que os olhos vêem.
De onde vinha o preconceito? Em grande parte do biótipo do jogador. Dizem que caráter é destino. Não é não: jeitão é destino. O jeitão do Dunga, sua maneira de pisar e de correr meio corcunda era a negação de tudo que já se vira em campo e culpado pela sua rejeição. No caso do Dunga, o jeitão representava o caráter - a obstinação, a objetividade, a entrega total ao jogo - , mas isso o preconceito não registrava. Suas jogadas bonitas (depois de Gerson e de Rivelino, ninguém dominou a arte do lançamento longo como Dunga) eram tão incongruentes, tão contra o biótipo, como um passo de dança do Quasímodo, que também repeliam. E, no entanto, o jeitão do Dunga ajudou a vencer aquela Copa dos Estados Unidos e só não ajudou a vencer a Copa seguinte, na França, onde ele jogou até mais do que em 94, porque deu Zidane contra.
Se Dunga é um bom treinador e merece estar onde está, não sei. Mas se cair que seja pelos seus erros reais. Não pelo velho preconceito cego.
(Luis Fernando Verissimo)
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