Uma injustiça. A Baronesa tem uma classe invejável, mais classe do que qualquer outro no filme. Resiste, com impressionante autocontrole, à natural tentação de esgoelar as crianças uma a uma. Aceita a perda do capitão milionário para Maria sem um comentário mais sarcástico sequer para a rival, tipo "Insista na comunhão de bens, querida - e, por favor, livre-se desse casaquinho". Nem adverte o capitão de que a doce Maria pode ter trazido a música de volta à sua casa mas também aumentará a glicose no seu sangue.
Sai de cena com a mesma classe com que entrou, quando qualquer outra mulher deixaria um rasgão num estofado ou carregaria um vaso caro na bolsa. E confesso que sonho com uma versão da peça em que, antes de sair pela porta, a Baronesa vire-se para o capitão Von Trapp e diga:
- Tem uma coisa que sempre me intrigou, capitão. Ser comandante da marinha austríaca não é um pouco como ser comandante de tropas alpinas no Egito?
Não sei se minha campanha para desagravar a Baronesa teria adeptos. Nem sei como procederíamos. Piquetes em frente ao teatro? Torcida organizada - "Ba-ro-ne-sa! Ba-ro-ne-sa!" - dentro do teatro? Não sei. Na peça, e na versão brasileira, há um número em que a Baronesa canta, o que não acontece no filme. Pelo menos isso.
(Luís Fernando Verissimo)
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